09/05/09
Ainda é cedo para falar em retomada da economia
Fonte:Diário do Comércio – São Paulo
A semana passada foi recheada de divulgações que animaram alguns setores. Tanto o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) como a Confederação Nacional da Indústria (CNI) apontaram crescimento da produção industrial no mês de março, embora na comparação com igual mês do ano passado o resultado ainda seja de queda. Do lado do emprego, a antecipação da colheita de cana-de-açúcar garantiu geração de vagas, conforme divulgação da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). No meio da semana, o Ibovespa alcançou 50 mil pontos, e o Banco Central (BC) comprou dólares para conter a valorização do real. Apesar de todos esses sinais de melhora, economistas e empresários ouvidos pelo Diário do Comércio foram unânimes em dizer que ainda é cedo para falar em retomada. O professor da Escola de Negócios e Direito da Anhembi Morumbi, Marcello Gonella, acredita que essa melhora está diretamente ligada aos aportes de recursos públicos feitos no Brasil, a exemplo do que ocorre no mundo todo. "A atividade produtiva tende a responder positivamente a esse tipo de estímulo. Mas só poderemos falar em retomada quando o mercado – e aqui incluo tanto produtores como consumidores – for responsável pelo aquecimento da atividade sem depender de políticas fiscais e monetárias", afirmou.
Para Gonella, a redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para automóveis, linha branca e material de construção foi acertada, pois estimulou a demanda e trouxe o crescimento das vendas no momento necessário. "Entretanto, no próximo ano, haverá restrições de gastos públicos por conta das eleições. Assim, o lado político poderá dificultar a retomada da atividade em 2010 se o mercado não a fizer por si só", disse.
O vice-presidente da Associação Brasileira de Engenharia Industrial (Abemi), Marcio Alberto Cancellara, concorda que os setores que tiveram melhor desempenho no último mês estão diretamente ligados aos estímulos fiscais. "Assim, é muito cedo para falar em retomada", salientou.
Para a economista do Grupo Santander, Luiza Rodrigues, o que ocorreu em março foi uma iminuição do ritmo da queda da produção e do emprego, mas ainda assim foram reduções. "Não dá para falar em recuperação, pois os resultados ainda são muito negativos na comparação anual", diz. O ponto positivo para a economista é que é pouco provável que a situação piore muito mais do que até agora.
Tanto é assim que o Grupo Santander aposta em uma queda de 0,3% do PIB em relação a 2008, resultado acima dos -0,39% apontados pelo mercado no último boletim Focus divulgado pelo Banco Central (BC).
O economista Emilio Alfieri, da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), diz que, estatisticamente, as divulgações da semana passada mostram que o País pode ter alcançado o fundo do poço. "Mas, se esse ritmo persistir, poderemos permanecer lá embaixo ainda por alguns meses", afirmou.
Alfieri acredita que só no segundo semestre a tão esperada retomada da atividade tenha início. Porém, apenas no último trimestre, quando surgirem efetivamente os efeitos da política monetária, que teve a primeira redução da Selic (taxa básica de juros) em janeiro.
Também o professor de administração das Faculdades Rio Branco, Guilherme Antonio de Moura Costa, acredita que o pior da crise no Brasil ocorreu entre o quarto trimestre de 2008 e o primeiro deste ano. "Nesses seis meses ocorreu a queda máxima, mas ainda estamos muito distantes dos níveis alcançados no ano passado, o que poderia ser considerado uma retomada", afirmou Costa.
Ele lembra ainda que a melhora ocorreu em alguns setores, especialmente aos ligados ao mercado interno. A opinião é compartilhada pelo industrial Rodolfo Bernauer, presidente da Bernauer, empresa que fabrica filtros e ventiladores industriais.
Segundo ele, segmentos voltados para esse mercado, como fabricação de cimento, tiveram um período de parada dos investimentos, o que afetou diretamente sua empresa. Após a redução do IPI e a melhora do setor imobiliário, o ramo da construção começa a retomar os planos. "Esses projetos não foram paralisados, mas o tempo de maturação aumentou. Agora, percebemos uma
retomada, inclusive nos pedidos de orçamento", afirmou.
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